Kenseiden – Samurais e Demônios num Clássico da Sega

O Master System foi sem sombra de dúvidas um dos meus consoles mais queridos. A Tec Toy fez um trabalho louvável com o console da Sega no Brasil, popularizando a cultura de video games de uma maneira pouco vista na época do Atari, com propagandas em revistas e televisão, serviço de suporte via telefone (Hot Line! Lembro de ter ligado lá pra pegar o password do horrível Alex Kidd in High Tech World – desculpas antecipadas aos que gostam deste jogo) e até o Sega Club (do qual eu tinha a carteirinha, ainda que nunca tenha usado pra nada). Os tempos eram outros: eu particularmente não lembro de ter visto qualquer jogo pirata de Master System – se queriamos experimentar jogos novos, alugávamos. Aliás, bons tempos de aluguel de jogos – passar na locadora e conversar com um bando de malucos que gostavam das mesmas coisas que você, experimentar jogos que você não compraria hoje nem piratas, ficar na fila para conseguir alugar os Block Busters… A locadora era “uma arma mais elegante para tempos mais civilizados”, como diria um antigo mestre Jedi.

Dentre meus jogos preferidos de Master System, um que nunca falta nas minhas listas é Kenseiden (que pode ser traduzido como “A Lenda da Espada Sagrada” ou “A Conjuração da Espada Sagrada” se você quiser algo mais épico), de 1988. Nunca tive Kenseiden, mas me arrisco a dizer que eu fiquei mais com o cartucho que o meu vizinho que o comprou (abraço Thiago!).

Ambientação

Kenseiden se passa no Japão na época dos Samurais (século XVI). O jogador assume o papel de Hayato, um Samurai que possui sangue de Dragão correndo por suas veias, e deve recuperar cinco pergaminhos lendários e a espada do Senhor Dragão. Para isso deve enfrentar demônios e espíritos do folclore japonês através dos estágios que percorrem as antigas províncias japonesas.

Gameplay

Kenseiden é um jogo de plataforma que remete um pouco aos games da série Castlevania da Konami – obstáculos e inimigos que tentam te derrubar em buracos, cenários mais sinistros e inimigos com padrões de movimentação diversificados, exigindo estratégias diferentes para serem derrotados.

A movimentação é tão fluida quanto a dos melhores jogos desta plataforma. Não seria exagero dizer que a jogabilidade de Kenseiden é bastante fluida, desde que situada no contexto do Master System.

As fases, embora sejam de maneira geral curtas, oferecem bastante desafio. Cada pulo deve ser bem estudado antes de executado (sobretudo nas fases de cachoeira, onde uma infinidade de pedregulhos ficam caindo do céu, enquanto inimigos camuflados na água tentam te pegar de surpresa).

Os mestres, ainda que sejam poucos (6), podem ser bem chatinhos de matar, e o estudo dos seus padrões de movimentação é obrigatório para conseguir chegar ao fim do jogo. A cada mestre derrotado, Hayato ganha um novo poder, que varia desde pulo mais alto até variações dos golpes da Katana.

Ambientação

Diferentemente da maior parte de outros jogos da mesma época, Kenseiden é bastante sombrio, evitando muito cair em designs mais caricatos para inimigos e cenários. É possível ver referências claríssimas à cultura oriental em todos os cantos, seja pela arquitetura, seja pelos Budas gigantes e principalmente nos Bosses. Se Kenseiden não prima por riqueza de detalhes nos cenários, também não peca por poluição visual, trazendo informação desnecessária na tela.

As músicas, ainda que poucas, são todas muito boas. A temática oriental foi respeitada também nas canções do jogo, mescladas com uma game-music rápida e tensa, que dita o ritmo do jogo. Não se sinta mal se depois de jogar meia hora de Kenseiden você ficar com as músicas da primeira e segunda fases na cabeça.

Considerações Finais

Embora haja relativamente pouco o que se falar sobre Kenseiden, esse jogo merece muito ser relembrado – principalmente quando se estiver falando em Master System e, por quê não, retro-gaming de maneira geral. Ainda que a Sega nunca mais tenha tocado no universo de Kenseiden, não é incomum ver fãs de Master System reclamando a ausência de uma continuação para esse clássico da geração 8 bits.

Colocando os pés no chão, Kenseiden é um jogo que deve manter o apelo mais para quem o jogou na época do Master System que para alguém que o conheceu agora (diferente de jogos atemporais como Super Mario Bros. ou Sonic). Mas de qualquer forma é um jogo obrigatório para quem se interessa pela história dos games e o 8 bits da Sega.

Kenseiden é um jogo da Sega exclusivo para o Master System. Se você tem um abaixo assinado pedindo pra Sega fazer uma continuação de Kenseiden, me avisa que eu assino.

Super Meat Boy – Simples, porém Complicado

Eu costumo dizer que essa nova geração, além de trazer gráficos ultra-realistas e interatividade online num nível nunca antes visto, serviu para uma volta mais que merecida dos jogos 2d. Depois da geração 16 bits (Mega Drive e Super Nintendo), os jogos 2d foram jogados cada vez mais para escanteio, sendo aproveitados praticamente só em jogos de luta (principalmente os da série King of Fighters) .

Eu não sei dizer ao certo o que contribuiu com a volta dos jogos 2d: o sucesso de plataformas móveis como o DS e o iPhone, a explosão do surgimento de desenvolvedores independentes ou simplesmente aquele lance das tendências de moda que voltam de tempos em tempos. Bem, não importa; fato é que das cabeças desses desenvolvedores independentes surgiram pérolas como Braid, World of Goo e o viciante e ultra difícil Super Meat Boy.

Super Meat Boy (desenvolvido pela Team Meat, 2010 para PC e XBOX Live Arcade) é uma versão revisada e ampliada de Meat Boy de 2008.

Só falando um pouco de Meat Boy, ele é um jogo em Flash de plataforma que aos poucos foi conquistando mais e mais fãs. É incrível pensar que um joguinho tão bem feito tenha sido desenvolvido por apenas duas pessoas (Edmund McMillen e Johnathan McEntee). Meat Boy foi inicialmente disponibilizado no site Newgrounds, um verdadeiro sugador de produtividade (se você acessá-lo do seu trabalho), que sempre trouxe excelentes jogos casuais em Flash.

Enfim, falemos de Super Meat Boy

Ambientação

A história de Super Meat Boy é bem simples: Meat Boy e sua namorada Bandage Girl (algo como “a Garota Curativo/Band-Aid”, em tradução livre) se amavam e viviam felizes… Mas o maligno Dr. Fetus (um feto numa armadura robótica), que não tem nenhum amigo e portanto é um ser muito infeliz, sequestra Bandage Girl. Como em 99% dos clássicos jogos de plataforma, o objetivo de Meat Boy é derrotar Dr. Fetus e salvar sua amada.

Gameplay


Super Meat Boy é um jogo de plataforma com uma mecânica bem simples: Meat Boy somente corre e pula. Mas o fato da mecânica do jogo ser simples não quer dizer que ele seja fácil. Ele não é. E digo mais, se você jogar Super Meat Boy você vai morrer mais de uma vez. Você vai morrer mais de 50 vezes e, sem exagero nenhum, posso falar que você vai morrer mais de 200 vezes.

Em Super Meat Boy, praticamente tudo mata o nosso simpático herói de carne: serras, pilhas de lixo hospitalar, montanhas de sal, etc. Apesar de o jogo contar com vidas infinitas (salvo algumas exceções comentadas mais adiante), as fases não têm checkpoint, ou seja: Se você morre numa fase, volta para o começo dela. E a graça é justamente essa: ele é um jogo tão desafiador, com fases tão difíceis, que incentivam você a tentar de novo e de novo até conseguir passar da fase que está jogando. E para premiar o seu esforço, ao término de cada fase rola um replay com todas as suas mortes, rolando em paralelo como se fossem vários Meat Boys fazendo a fase ao mesmo tempo.

Claro, se toda essa dificuldade não for suficiente pra você, ainda há o modo “Dark World” das fases, onde a dificuldade é aumentada ainda mais.

Uma das coisas mais legais de Super Meat Boy são as Warp Zones: ao entrar nelas, o jogador é transportado para fases com referências diretas a plataformas retrô, com gráficos mais simplificados e música em chiptune no melhor estilo NES. E é claro, se é para replicar o feeling dos jogos antigos, por quê não limitar as vidas do jogador, só pra tornar a parada toda mais divertida, heim?

Super Meat Boy conta ainda com personagens desbloqueáveis, que são obtidos ou por pegar uma certa quantidade de “band-aids” nas fases ou por passar as fases bonus dos Warp-Zones. E esses personagens secretos são um destaque a parte, pois vêm de outros jogos (em sua maioria independentes). Destaques para Tim (de Braid, exclusivo da versão de X BOX 360), Head Crab (de Half Life, só na versão de PC), a Goo Ball (do World of Goo, também exclusivo da versão de PC), Pink Knight (de Castle Crashers, exclusivo para o X BOX) e The Kid (de I Wanna Be The Guy, um joguinho de PC praticamente impossível de terminar).

Apresentação

Os gráficos de Super Meat Boy são na medida certa para o que ele propõe. São gráficos 2d, bem com aquela cara de animação frenética em Flash, com gráficos simples, coloridos e, de certa forma, toscos. Animações rápidas e muito, muito sangue. Os efeitos de iluminação são bem interessantes, principalmente quando determinada plataforma se quebra e a luz começa a “vazar” por ela.

Super Meat Boy traz animações divertidas no início de cada capítulo, que fazem referência a clássicos do mundo dos games, como Street Fighter 2, Mega Man 2 e Castlevania. Além dessas animações, as que são apresentadas no final de cada capítulo também são bem engraçadas, lembrando o humor negro aliado ao “fofo” dos clássicos desenhos “Happy Tree Friends”

A trilha sonora criada por Danny Baranowsky (com sua empresa dB Soundworks) merece uma atenção especial. Acho que desde Mega Man 2 não ouvia algo tão bom em um jogo – sério! As músicas misturam Drum n’ Bass, Heavy Metal, Dance, Música Clássica (daquelas bem de filmes Hollywoodianos), e Techno, num ritmo louco! Músicas muito boas para ouvir enquanto trabalho ou dirijo – aliás, as músicas de Super Meat Boy já estão no meu pen drive há mais de 3 meses – ouço quase todo dia e não consigo enjoar.

Foi a primeira vez na minha vida que gastei dinheiro comprando a trilha sonora de um jogo e valeu bem a pena – $ 3,99 por todas as músicas do jogo, mais algumas versões remixadas muito boas. Recomendo.

Considerações Finais

Super Meat Boy é um dos maiores representantes da nova (e excelente) safra de jogos independentes que está dando um ar diferente para essa nova geração. É um jogo de plataforma com mecânica simples, porém extremamente difícil, recomendado principalmente para aquele pessoal que gostava de terminar o Super Mario World com 100% das fases completas, ou que passava horas jogando Kid Chameleon no Mega Drive só pra terminar sem pegar nenhum Warp-Zone.

Links

Super Meat Boy é um jogo da Team Meat, disponível via download na XBOX Live Arcade e no Steam (para PC). Maldita Sony que não deu atenção pra Team Meat quando eles levaram o jogo para apresentar.

Braid – da Independência à Imortalidade

Braid

No final de 2009 eu me presenteei com o Playstation 3. Como os jogos em Blu-Ray são relativamente caros, eu meio que comecei a me virar com o que a PSN tinha para oferecer. O primeiro jogo que comprei foi o Marvel vs Capcom 2, mesmo não sendo um grande fã (ou bom jogador), mais para ter algo pra jogar. Aquilo era um port bem fiel ao que eu já tinha jogado antes no Dreamcast, então comecei a procurar por algo que trouxesse um ar novo. Mais que isso, experiências de jogabilidade completamente novas. Depois de pesquisar bastante, acabei comprando dois jogos extremamente aclamados pela crítica por serem inovadores: Flower (que talvez eu poste algo num futuro próximo) e Braid.

Braid é um jogo independente criado por Johnahan Blow (que inclusive esteve no Brasil ano passado), lançado inicialmente para XBOX 360 (agosto de 2008), depois para PC (abril de 2009) e por último para o PS3 (novembro de 2009). Foi premiado melhor jogo independente na Independent Games Festival em 2006, bem antes de ter sido lançado, e após seu lançamento ganhou diversos prêmios de melhor jogo baixável e melhor jogo independente de revistas e sites gabaritados, como GameSpot e IGN.

As imagens que eu via de Braid antes de comprá-lo não me chamavam tanto a atenção: me parecia um jogo de plataforma, bonitinho, mas ainda assim, mais um jogo de plataforma. E, salvo algumas poucas exceções, eu achava que o gênero tinha sido saturado na era 16 bits, com tantos Sonics e Marios genéricos.

Eu estava enganado. Redonda, mas felizmente enganado.

Ambientação

Em Braid você joga com o protagonista Tim, um homem que precisa salvar a sua princesa que foi raptada por um terrível monstro e para isso deve colher peças de quebra cabeça em 5 mundos, acessados através de quadros nos cômodos de uma casa. Cada mundo tem uma temática diferente, um clima diferente e para fazer uma alusão a um outro famoso jogo de plataforma, ao final de cada fase Tim encontra um castelo, onde um simpático dinossauro (que lembra o Barney) informa que a princesa está em outro castelo.

Braid

Eu já ví isso antes em algum lugar...

A trama dá margem a inúmeras interpretações, mas é o tipo de coisa complicada para se falar sem dar spoilers gravíssimos, que estragariam o final do jogo. Recomendo que você jogue e tire suas conclusões e, se quiser a minha opinião, converse comigo por e-mail ou GTalk, ou até mesmo em algum boteco por aí. Claro que você pode caçar explicações na web, elas existem aos montes, acredite.

Gameplay

Braid é um jogo de plataforma bem comum para quem acaba de pegar ele em mãos. Você pula na cabeça de inimigos para matar e para todos os efeitos não tem golpes além do próprio pulo.

Isso só numa primeira impressão – as 5 fases iniciais de Braid (que são referenciadas como os capítulos de 2 a 6) têm características bem próprias e em cada uma delas Tim possui um poder diferente, alterando a forma como os desafios devem ser superados.

Por exemplo, no capítulo 3 (Time and Mystery – Tempo e Mistério), Tim tem a habilidade de voltar no tempo, no melhor estilo Prince of Persia – Sands of Time. Porém ao inves de usar isso apenas para desfazer aquele último pulo que te fez cair num espinho, essa habilidade deve ser utilizada prestando atenção em elementos do cenário que podem (ou não) ser afetados por ela. Confuso? Digamos assim: há plataformas móveis que não voltam no tempo junto com Tim, e você deve usar isso a seu favor para fazer com que ele alcance as peças de quebra-cabeças da fase.

Outro exemplo: no capítulo 4 (Time and Place – Tempo e Lugar), o fluxo do tempo está diretamente relacionado com o movimento do personagem: se Tim anda pra frente, o tempo avança. Se anda pra trás, o tempo regride. E se fica parado, os elementos da tela se mantém parados. Isso chega a dar nós no cérebro em algumas situações.

Enfim, se eu ficar explicando o que ocorre em cada capítulo, esse review pode ficar um pouco massante. Acredite no seguinte: cada capítulo tem uma experiência de gameplay única, cada uma desafiadora a sua maneira. Você não é obrigado a superar todos os desafios na primeira vez que joga – apesar de que para terminar o jogo são necessárias todas as peças, você pode deixar de pegar uma para voltar nela depois, se achar que um determinado puzzle está difícil demais (acredite, isso vai acontecer). O trailer de Braid passa uma boa idéia de tudo isso.

Apresentação

Mais que uma pintura, Braid é uma obra de arte. Podemos começar pela primeira cena do jogo (a exibida no início desse post). Parece uma imagem simples, mas na verdade nessa parte você já está jogando.

Aliás, ainda bem que surgiram os jogos baixáveis nessa geração, salvando o 2D. Da era do Playstation 1 pra cá, muito pouco ou quase nada se fez em matéria de 2d ou plataforma. O mais perto que chegavam de gráficos “desenhados” eram os Cell Shadings, presentes em jogos como Okami e os Dragon Ball.

Voltando ao Braid, cada fase tem uma temática diferente, passando de um clima mais colorido e ensolarado da primeira fase a cenários cada vez mais cinzentos e destruídos nas fases seguintes.

A trilha sonora de Braid é maravilhosa, ainda que não tenha sido feita exclusivamente para ele (as músicas são licenciadas de artistas do selo independente Magnatune). Ainda assim, é incrível como elas se adequam tão perfeitamente ao clima do jogo. As músicas são bem tranquilas, com bastante instrumentos de cordas, e longas, o que faz com que não se repitam muito enquanto o jogador passa muito tempo tentando resolver um determinado puzzle. Interessante frisar também que as músicas soam bem até quando tocadas de trás pra frente, algo que ocorre muito em Braid.

Considerações Finais

Braid é recomendável para aquele jogador que está meio cansado de mesmice e quer algo diferente, inovador e bem caprichado. Possivelmente aquele seu amigo que só joga Call of Duty vai olhar esse jogo e falar que é uma porcaria.

É um daqueles jogos que todo gamer de respeito deve jogar antes de morrer. O jogo é curto, mas desafiador. Possui uma apresentação impecável, um texto cheio de nuances que podem passar despercebidas pelo jogador mais desatento, uma trilha sonora que acalma até os mais estressados dos nervos e  um final que pode surpreender muita gente.

Como se isso não bastasse, vez por outra a PSN, a Live ou a Steam fazem promoções malucas, reduzindo o preço desse jogo (no natal, por exemplo, houve o Humble Indie Bundle 2, onde Braid mais outros 4 jogos foram vendidos por… quanto você quisesse pagar! E o dinheiro ainda ia para a caridade!)

Braid foi jogado até o fim no Playstation 3, mas também está disponível para XBOX, PC e Mac.